CONFLITOS DA MAGIA

30/01/2018

 

Ilustração e texto: Adilson CTS

 

Mérelin abriu os olhos e contemplou a entrada do corredor escuro a sua frente. Finalmente, após anos de estudo e muito treinamento, conseguiu entrar naquele plano de existência onde a magia dominava tudo ao seu redor.

Percebeu que havia uma lanterna em sua mão direita. Ela a ergueu e a luz da vela iluminou o seu caminho, então ela entrou no corredor. Caminhou devagar enquanto observava atentamente as paredes de alvenaria a sua volta. Logo o corredor dividiu-se em dois caminhos e ela ficou parada, ponderando sobre qual deles deveria seguir. No mundo onde Mérelin vive muitas pessoas possuem aptidões mágicas, mas tornar-se um mestre da magia, como ela almejava, era um feito para poucos.

Decidiu ir pelo cainho da direita. Caminhou pelo que parecia uma eternidade, até que a luz da lanterna revelou uma porta de ferro no final do corredor. Mérelin observava a porta enquanto decidia se deveria abri-la ou voltar para o outro corredor. Atrás desta porta poderia estar o seu triunfo, mas se fizesse uma escolha errada agora, anos de dedicação e sacrifício iriam se perder em apenas um segundo.

O medo do fracasso começou a dominá-la aos poucos, e de repente ela percebeu que as paredes do corredor começaram a se fechar em sua direção. Mérelin soltou a lanterna e tentou segura-las com as mãos, sem sucesso. Então ela percebeu que a dúvida estava enfraquecendo sua mente.

Suas mãos começaram a brilhar com a sua magia e ela foi capaz de empurrar as paredes para longe de si. Fechou os punhos e correu em direção a porta com convicção, empurrando-a com toda sua força. A porta abriu-se e uma forte luz ofuscou seus olhos.

Mérelin entrou na sala com os olhos fechados, mas aos poucos eles foram acostumando-se com a luz e então ela foi capaz de ver uma criança que estava ali dentro. Observando melhor, a jovem percebeu que não era uma criança comum: era ela mesma.

Logo Mérelin entendeu que a criança representava sua infância. Aproximou-se devagar enquanto era encarada pela garotinha. A criança ergueu a mão enquanto olhava fixamente nos olhos da jovem, observando a parte mais profunda de sua alma. Mérelin abaixou-se diante dela e fez o mesmo. Quando seus dedos se tocaram, uma grande ferida parecia ter sido aberta na maga. Uma dor antiga e aguda retornou subitamente.

Mérelin experimentou novamente, com a mesma intensidade de uma criança de sete anos, a dor que sentiu quando seu pai deixou sua casa e partiu para viver aventuras, onde encontrou o seu fim, deixando ela sozinha com uma mãe amargurada.

Mesmo sofrendo muito ao reencontrar uma parte de si mesma que havia renegado, Mérelin sentia-se completa. Era difícil aceitar aquela parte frágil novamente depois de rejeitá-la durante anos. As duas caminharam juntas até uma porta de madeira do outro lado da sala.

Mérelin abriu a porta e deparou-se com um lindo jardim. Caminharam algum tempo por ele, encantadas, até encontrarem um unicórnio branco. Montado nele estava o homem que a jovem amava.

– Olá Méri – disse ele enquanto descia do animal e aproximava-se dela, sorrindo.

– O que está fazendo aqui? – indagou Mérelin, esquecendo por um momento que ali tudo era possível.

– Vim buscá-la – o homem pegou nas mãos dela. – Finalmente percebi o quanto você é importante para mim. Uma lágrima correu pelo rosto de Mérelin. Sempre quis ouvi-lo dizer aquelas palavras para ela, mas tudo que conseguia era sua indiferença. No fundo sabia que aquilo não era real, mas, naquele plano de existência, realidade e ilusão eram um mero detalhe.

Ele acariciou o rosto da jovem e ela pode sentir todo o amor e carinho que sempre procurou naquele homem. Mérelin apertou as mãos dele, fechou os olhos e desejou do fundo do seu coração que aquele momento durasse para sempre.

– Vem comigo – disse ele enquanto olhava nos olhos dela. – Nós dois podemos ficar juntos para sempre.

– Só nós dois? – Mérelin olhou para a garotinha.

– Sim – o homem abraçou ela carinhosamente. – Você pode ter o que deseja agora mesmo, basta vir comigo.

Outra lágrima rolou pelo rosto de Mérelin. Ela pegou uma adaga em sua cintura e perfurou o coração do homem. Enquanto ele caia e agonizava, ela percebeu que havia dominado seus sentimentos mais íntimos.

Correu até a garotinha e abraçou ela com todas as suas forças. Nesse momento um portal mágico surgiu diante delas. As duas sorriram e atravessaram ele juntas, de mãos dadas.

Mérelin abriu os olhos. Uma compreensão maior da existência tomou conta dela. Antigas questões para as quais nunca encontrara respostas antes subitamente esclareceram-se e todas as suas dúvidas desapareceram. Atordoada, a jovem demorou algum tempo para perceber que seu mentor a observava, satisfeito.

 

 

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