O EXTERMINADOR DE PESTES

09/04/2018

O jovem centauro gritava de dor enquanto era atingido por dezenas de pequenas lanças e adagas arremessadas pelos kobolds que estavam em cima das árvores. Estava cheio de feridas por todo o corpo e acreditava que aquele seria seu fim.

De repente uma lâmina cortou o pescoço de um dos kobolds e seu corpo caiu da árvore, estatelando-se no chão. Seus companheiros olharam para o galho onde ele estava e viram um pequeno goblin. Ele olhava fixamente para os kobolds enquanto segurava duas espadas curtas.  Os kobolds começaram a arremessar suas armas, mas o goblin era muito ágil e saltava de galho em galho para escapar delas. Chegou ao lado de um kobold e o matou com golpes rápidos. As criaturas continuaram atacando, mas ele sempre conseguia se aproximar de uma delas enquanto se esquivava de seus ataques, matando-as em seguida. Depois de várias baixas, os kobolds decidiram fugir.

– Você tá legal? – perguntou o goblin enquanto saltava para o chão.

– Não acredito que precisei ser salvo por um goblin! – lamentou o centauro. – Vou ser a piada da minha aldeia.

– Esqueça isso – o goblin olhou as feridas do jovem. – Eu te levo até sua tribo.

– Além de me deixarem nesse estado, eles ainda levaram o medalhão do meu pai… – o centauro começou a caminhar com dificuldade. – Nunca vou ser capaz de cumprir minha promessa.

Andaram por cerca de meia hora até finalmente chegarem na tribo. O goblin despediu-se do centauro e virou as costas para ir embora.

– Espere – disse o centauro. – Eu quero recompensá-lo.

– Não precisa. Vão acabar comigo se me virem com você desse jeito.

Era tarde demais. Um centauro da aldeia acabou avistando os dois e deu um grito de alerta. Logo dois deles, armados com lanças, se aproximaram rapidamente.

– Ronan? – indagou um dos centauros quando viu o jovem. – O que aconteceu?

– Sai para caçar sozinho, mas acabei sendo encontrado por kobolds. Teria morrido se ele não tivesse aparecido para me salvar.

A má fama da raça dos goblins logo despertou a desconfiança dos centauros e eles começaram a andar em círculos em volta do forasteiro. O goblin percebeu que era melhor esclarecer as coisas logo, então disse para os centauros que se chamava Ogovi. Explicou que era um exterminador de pestes e que estava na região em busca de contratos.

– Ronan, vá para casa – pediu um dos guardas. – O goblin terá que vir conosco.

Ronan protestou, mas acabou sendo acompanhado por um dos guardas até sua casa. Ogovi foi levado para a cabana de Ataram, o líder da tribo. Depois do guarda explicar a situação, Ataram pediu para que fosse deixado a sós com o goblin.

– Exterminador de pestes?  – Ataram olhou Ogovi desconfiado.

– Isso mesmo. Eu treinei para lutar com oponentes do meu próprio tamanho ou menores.

– É fácil perceber que você não é um goblin comum – Ataram ofereceu uma taça com vinho para Ogovi.

– Tenho meus motivos – o goblin pegou a bebida.

– Motivos? – o centauro encheu uma taça para ele. – Me fale sobre eles.

Enquanto contava sua história para o centauro, as lembranças tomaram a mente de Ogovi. Ele havia entrado para um grupo de goblins assaltantes quando ainda era muito jovem. Um dia ele e seus companheiros atacaram um outro goblin que caminhava com uma humana aparentemente inofensiva. Porém a mulher era uma guerreira e, inesperadamente, lutou ferozmente para proteger seu companheiro. No final do combate os criminosos que acompanhavam Ogovi haviam encontrado a morte pela espada da mulher, enquanto ele sangrava no chão, gravemente ferido.

– Maldito! – berrou a guerreira – Não poupam nem a sua própria raça, mas agora terá o que merece.

– Não! – gritou o companheiro da mulher. – Por favor, não o mate.

– Cale-se, Agin! Não quero ouvir seus discursos de clérigo.

– Foi um discurso de clérigo que tornou nossa amizade possível – argumentou Agin.

A guerreira abaixou a espada, contrariada. Agin estava com a mão na barriga onde fora ferido por um dos atacantes. Ele caminhou até Ogovi e começou a olhar suas feridas.

– Me desculpe – implorou Ogovi. – Eu não queria participar disso, mas eles me ameaçaram.

– Eu já fui como você, mas, felizmente, encontrei um propósito e ele iluminou meu caminho.

– Um o quê?

– Propósito. Um objetivo. É uma meta que eu busco alcançar, e que me faz ser algo além daquilo que os outros esperam de mim.

– Propósito… – Ogovi observou Agin por um momento. – Pena que eu não terei chance de encontrar um…

– Você terá – sussurrou Agin.

– O quê? – A guerreira caminhou até o clérigo. – Nem pense nisso.

– Sua irmã aprovaria – afirmou Agin.

O clérigo estendeu as mãos e invocou uma magia que curou Ogovi. Depois Agin explicou para o assaltante que essa era sua última magia de cura. Levaria horas até recuperar suas energias para poder invocar outra magia novamente, e até lá já estaria morto. Ogovi ficou atordoado, sem acreditar que alguém estava sacrificando a própria vida para que ele vivesse.

– Por que fez isso? – perguntou Ogovi.

– Quero seguir o meu propósito até o fim – respondeu Agin. – E honrar aquela que acreditou em mim.

Agin pegou seu medalhão e entregou para Ogovi. Disse que queria que ele o carregasse como um lembrete de que podia ser alguém melhor. O clérigo morreu nos braços da mulher logo depois.

Ogovi vagueou pelo mundo por um tempo, até que um dia conheceu um goblin exterminador de pestes e tornou-se seu aprendiz. Desde então, exterminar pestes se tornou um propósito que o ajudava a ser alguém melhor.

– Entendo – o centauro bebeu um gole do vinho. – Ronan perdeu o pai a pouco tempo. Ele era meu irmão. O garoto prometeu a sua mãe que iria cuidar dela… deve ter ido caçar sozinho para provar a si mesmo que era capaz de cumprir a promessa.

– Aquelas pestes levaram o colar do pai dele.

– Malditos! Covardes! – praguejou o centauro enquanto socava a parede. – Você conseguiu seu contrato. Quero que vá até os kobolds e acabe com eles.

Os kobolds escondiam-se em túneis no alto das montanhas, onde os centauros não conseguiam alcança-los. Depois de aceitar o trabalho, Ogovi foi até a cabana de Ronan. Ele estava deitado no chão, totalmente entregue a derrota. A mãe do jovem centauro estava muito preocupada. O goblin foi até Ronan para conversar com ele.

– Desisto – disse Ronan. – Eu sou um fracasso.

– Você ainda é jovem. Terá sua oportunidade.

– Não. Tenho medo de falhar de novo.

– Todos podem falhar. O importante é nunca parar de tentar.

Ogovi tirou seu medalhão e o entregou para Ronan. O goblin explicou a importância que o objeto tinha, e disse que depois que recuperasse o medalhão do centauro, voltaria com ele para trocar pelo seu.

Ogovi partiu até as montanhas. Procurou até encontrar um dos túneis e então entrou nele. Era escuro e úmido, mas suas habilidades de goblin permitiram que ele enxergasse lá dentro. Andou por quase uma hora e acabou caindo em algumas armadilhas, ficando ferido.

De repente dezenas de kobolds apareceram e atacaram Ogovi. Ele começou a mata-los com seus golpes rápidos, mas eles eram muitos e conseguiram atingi-lo várias vezes. Depois de algum tempo, o goblin estava com feridas por todo o corpo, e ainda havia muitos kobolds para matar. Então Ogovi pegou uma poção e a bebeu rapidamente. Ela lhe concedeu uma habilidade especial, porém seu pequeno corpo seria tomado por uma enorme exaustão depois que o efeito terminasse e ele iria morrer. O goblin começou a girar como um pequeno furacão e desferiu dezenas de ataques com suas espadas curtas, varrendo os kobolds no seu caminho e deixando poucos sobreviventes, que fugiram desesperados.

O efeito da poção não ia durar muito tempo. Rapidamente Ogovi começou a procurar o medalhão. Depois de passar por vários lugares e revirar tudo que encontrava pela frente, ele encontrou o objeto e saiu dos túneis o mais rápido que pôde.

Ogovi correu com todas as suas forças em direção a tribo dos centauros, mas o efeito da poção terminou e ele caiu no meio do caminho enquanto suas vistas escureciam. O goblin tinha esperança de que os centauros encontrassem o medalhão do garoto junto com seu corpo mais tarde. Ogovi lembrou do clérigo que havia salvado sua vida e sorriu. Estava feliz por ter seguido seu propósito até o fim e honrado aquele que havia acreditado nele.

 

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