SOZINHO OU NÃO, VOCÊ TEM QUE SEGUIR EM FRENTE | NEVER ALONE

07/08/2018

 

Never Alone (Kisima Ingitchuna) é um jogo de aventura com elementos de quebra-cabeça. O game tem como objetivo divulgar a cultura do povo Iñupiaq, indígenas que habitam o Alasca desde a pré-história. Never Alone foi desenvolvido pela Upper One Games, publicado pela E-Line Media e lançado dia 18 de novembro de 2014 para PC, Xbox One e PS4.

HISTÓRIA

Uma fábula diferente…
Never Alone conta a história de Nuna, uma garotinha Iñupiaq muito corajosa que vive em uma aldeia afligida por terríveis nevascas. A neve impossibilita a caça, de modo que seu povo está definhando para a morte.

Curiosa como toda criança, Nuna decide sair de sua aldeia para descobrir o que está causando tempestades de neve tão severas. Sua viagem poderia acabar de forma trágica quando um feroz urso polar a persegue… mas ela é salva por uma bela raposa do ártico! Um forte laço de união imediatamente se forma entre Nuna e a raposa, e as duas seguirão juntas em uma jornada que mistura realidade, folclore e fantasia; tudo isso para nos apresentar de maneira lúdica um pouco das tradições dos Iñupiaq.

A ORIGEM DE NEVER ALONE

Tudo começou com a Cook Inlet Tribal Council (CITC, ou Conselho Tribal da Enseada de Cook), uma organização situada na região de Cook, no Alasca, que fornece diversos serviços para os nativos alasquenses ou índios norte-americanos. Eles buscavam uma forma de divulgar a cultura de seu povo, os Iñupiaq, ao mesmo tempo que tentavam encontrar uma forma de arrecadar fundos para melhorar seus serviços na região, e acabaram escolhendo fazer isso através dos jogos.
Foi aí que a CITC escolheu a E-line Media, empresa com sede em Nova Iorque que tem como foco criar jogos educacionais e que conta com funcionários que trabalharam em jogos de sucesso como Tomb Raider Anniversary e a série SOCOM. Juntos a CITC e a E-line Media criaram o estúdio Upper One Games, a primeira empresa de jogos pertencentes à indígenas nos Estados Unidos, que foi responsável por Never Alone.

Alguns dos nativos do Alasca que deram depoimentos para a produção de Never Alone.

A CULTURA DOS IÑUPIAQ

O povo Iñupiaq habita a região ocidental do Alasca há muito tempo, desde antes da pré-história. Hoje sua população gira em torno de 13.500 pessoas e sua milenar cultura pode acabar sumindo em algumas décadas.
Never Alone busca difundir diversos aspectos do povo Iñupiaq e, para isso, contou com o suporte de quase 40 pessoas entre anciões, contadores de histórias e membros da comunidade. O jogo adapta a lenda de Kunuuksaayuka, uma tradicional história dos Iñupiaq, onde um membro da tribo parte em uma jornada para solucionar o problema das fortes tempestades de neve que assolam seu povo.
O game faz a escolha acertada de colocar uma menina, Nuna, no papel de heroína. Em tempos de busca de igualdade entre gêneros no mundo dos games, esta é uma decisão que merece elogios, principalmente pelo fato de a lenda original ser protagonizada por alguém do sexo masculino. O game possui 24 pequenos vídeos com depoimentos de diversos nativos alasquenses. No total, são quase 30 minutos de conteúdo que ensina aos jogadores aspectos culturais, religiosos e folclóricos do povo Iñupiaq. A arte, a música, a localização pela lua no mês negro e a vida compartilhada também são temas abordados, mostrando que, apesar de milenar, essa cultura tem muito a ensinar.

JOGO EDUCATIVO

Never Alone e seu viés educativo lembram bastante outro game recente, Valiant Hearts: The Great War, que conta diversos aspectos históricos da Primeira Grande Guerra no decorrer da história. Ambos os títulos usam esse meio para explicar muito do que se passa nas fases, mas parar a cada instante para ver o novo vídeo acaba quebrando o ritmo da partida. Em Never Alone os conteúdos dos estágios estão bem ligados aos vídeos. Por exemplo: pouco depois de iniciar uma fase noturna com uma aurora boreal no céu, um vídeo conta que, na cultura Iñupiaq, acreditava-se que as luzes eram crianças que podiam arrancar a cabeça (!) de quem saísse sem o capuz. Nessa fase essas crianças acabam fazendo parte dos quebra-cabeças a serem vencidos.

GAMEPLAY, GRÁFICOS E SONS

Que fique claro: a cultura dos Iñupiaq é riquíssima e muito bela, bem diferente da nossa, e vale muito a pena percorrer os oito capítulos até o fim para aprender um pouco mais.

Never Alone também é poético e a ausência de interface na tela e as bordas mais escuras ajudam a criar o clima do game. A jogabilidade é bastante simples e se apoia na sinergia entre as protagonistas: Nuna é capaz de empurrar/puxar coisas e também pode destruir barreiras e “acordar” espíritos com sua boleadeira. A raposa, por sua vez, é capaz de se esgueirar por frestas e saltar entre duas paredes, além de conseguir “evocar” espíritos da natureza que serão muito úteis em sua jornada. O game intercala momentos de plataforma com pequenos puzzles baseados em física e algumas sequências de perseguição bem bacanas.

Os gráficos também ajudam bastante: simples, mas bonitos e bem trabalhados, permitindo perceber as emoções dos personagens em suas feições. Algumas animações foram feitas com desenhos no estilo alasquense, ajudando na imersão do game e ficando bastante artísticos.
A trilha sonora se faz presente quando necessário, mantendo uma pegada tribal que combina perfeitamente com o jogo. Na maior parte do tempo, porém, é o som do vento, dos seus passos e o pio das corujas que irá te acompanhar.
Mesmo que não falem, Nuna e a raposa são muito carismáticas e fofinhas e a simples afeição a elas consegue manter o jogador interessado por toda a campanha, que dura cerca de 4 horas. O jogo é relativamente curto, mas a mensagem que ele passa é bem maior.

CONCLUSÃO

Never Alone (Kisima Ingitchuna) é um produto artístico belíssimo e o fato de ter um viés educacional também é interessante.
Ele pode ser jogado cooperativamente por 2 jogadores no mesmo console, onde um assume o controle de Nuna e o outro de sua companheira raposa, mas também pode ser jogado sozinho.
Apesar da aventura ser toda narrada no idioma Iñupiaq, o jogo está 100% legendado em português, de modo que podemos entender tudo (inda bem!).
O gameplay é simples, os personagens são carismáticos e a história é tocante, mas a bagagem cultural que está “embutida” nestes jogos é o seu maior triunfo.

 

Por falar em jogos de aventura, já leu nosso post sobre Uncharted? Leia Já:

O PITFALL DA ERA MODERNA – UNCHARTED!

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